Travessia dos Alpes (por Celso Duarte)

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Estávamos em Maio de 2008. Com poucas horas de vôo de experiência, e uma asa que já tinha dado o que havia para dar, mandei-me para Chamonix, sozinho. Em 3 semanas nos Alpes, apenas fiz 3 marrecas (marreca: acto ou efeito de descer compulsivamente após a descolagem) no único dia de Sol e vento fraco. Na 1ª descolagem, em alpino, fiquei com um ramo agarrado nos fios do manobrador. Umas pequenas bombadas e consigo tirar o ramo… e partir uma linha que ligava a três, ao bordo de fuga. Dei um nó à pescador (Isso! Ficou mais curto!!), e no 3º vôo/marreca, numa enroladela mais apertada e a contemplar o “Glaciar des Bossons”, faço um helicóptero sem querer, junto à encosta. Sem perceber bem o que se tinha passado na altura, arrumo tudo e digo a mim mesmo “voltarei, mas mais bem preparado“.

Era um pouco de sonho e muito de utopia, a ideia de um dia atravessar parte dos Alpes a pé e a voar. Pouca experiência e material muito pesado, eram desculpas de peso para esse sonho não passar de uma miragem. A experiência fui-a ganhando aos poucos, com alguns vôos em zonas de montanha com camaradas do mesmo vício, nos Dolomites, Himalaias e Pirinéus, e já há 2 anos que tinha o equipamento necessário para tão desejado “hike & fly”. Agora só me faltava arranjar os “COJONES”! As desculpas sucediam-se! Este ano até tentei arranjar boleia para lá. Podia ser que não arranjasse, e aí teria novamente uma desculpa. “Oh! Não arranjei boleia!!” Não estava a ser correcto para comigo mesmo. A vontade de ir estava sempre em conflito com a coragem de o fazer. Resolvi a questão, comprando o bilhete de avião. Pronto! Agora teria SÓ de arranjar os “COJONES”!

Comprei o bilhete para Munique, pelo preço, e não por qualquer zona específica dos Alpes a querer percorrer. Tirando o Matterhorn (que está na lista), era-me indiferente o pedaço de maravilhosa terra Alpina a percorrer. Passado dois dias compro o bilhete de volta. Seria por Bergamo o regresso. A ideia de voltar também por Munique e fazer um circuito pelos Alpes ficou de fora porque poderia correr o risco de preferir fazer um circuito pelos bares e cervejarias de Munique. Por Bergamo, teria mesmo de atravessar os Alpes! Mas mesmo nesta altura, atravessar ainda não significava necessariamente fazê-lo a voar. Pois só na véspera experimentei colocar tudo na cadeira como se fosse descolar. Parecia que as costuras da cadeira iam todas rebentar, e ainda faltava a água, a comida e a botija de gás. Aqui, a vontade a sobrepôr-se a tudo o resto! Equacionei não comer refeições quentes e andar a frutos secos e barras energéticas, pelo menos na montanha, caso não conseguisse colocar tudo dentro, mas sabia que ainda tinha espaço no cockpit e numa pequena mochila, que poderia levar ao peito enquanto voava.

Depois de tirada esta foto, ainda retirei o casaco preto.

A partir de Munique tinha várias hipóteses, entre Salzburgo e Garmish-Partenkirshen. Escolhi Garmish por ser um ambiente mais alpino, e a partir daqui comecei a estudar a possível rota até Bergamo. Contornar Zugspitze, seguir pelo vale de Imst até Landeck, depois pelo vale de Tosens até Nauders. Depois aqui ou iria para S e teria de contornar o maciço de Ortler e depois fazia o vale de Tirano e Sondrio, ou seguiria para SW e iria o resto da travessia pela Suíça, por Scuol, Samedan, Chiavenna até ao Lago di Como. Mas esta parte seria decidida mais para a frente.

Dia 1 (2.7.2019)

Usei a app MAPS.ME para me guiar no chão. Da Estação de comboios em Garmish até Osterfelderkopt (Alpspix), dava-me 12km e um desnível de 1344m. Até Hammersbach foi tudo plano, mas quando começou a subir… Foi como que a dizer: “Se quiseres desistir é agora, porque a partir daqui não há cá subidas como as do Gerês. Aqui, quando é para subir, É PARA SUBIR!!!”. Demasiado tarde! A parte mais difícil já estava ultrapassada há muito, com a compra do bilhete de avião. Estava a viver um sonho, e a palavra “desistir” já não fazia parte do dicionário. As previsões para o dia seguinte mantinham-se más, por isso não havia pressa (nem força) para subir tudo no mesmo dia. Fiquei no bosque, junto a Kreuzeckhaus. Apesar de saber que era muito importante alimentar-me, o cansaço levou-me a deitar, mal montei acampamento.

Dia 2

Fiz o resto do percurso até Osterfelderkopt devagar. As nuvens moravam lá em cima, com tímidas abertas pelo meio. Quando o teleférico encerrou, foi quando começou a abrir. Ainda fiz umas caminhadas até umas vias ferratas, mas agora, leve como uma pena. Menos 23kg às costas.

Dia 3

Acordo com uma ligeira neblina a dar ainda mais piada à paisagem. Cedo as nuvens começam a ocupar os cumes, e o meu nervosismo instala-se. Será que se vai manter limpo na descolagem? Até quando? Cedo também chegam os primeiros pilotos. Bilugares e a solo. Falo com alguns deles e a nenhum lhes pareceu possível a passagem pela esquerda até à Áustria, com um tecto relativamente baixo como estava. Teria de passar por toda a encosta N e depois atravessar uma área grande sem aterragens e com inclinação positiva em relação à minha e ao restante vale, antes de entrar na Áustria. Poderia esperar um pouco mais e aguardar que o tecto subisse, mas a possibilidade das nuvens taparem a descolagem e do vento aumentar, fizeram-me optar por não esperar. Estava nervoso! Para além do nervosismo de uma qualquer descolagem, tinha ainda acumulado o de ter de colocar tudo o que me acompanhava nesta travessia, em vôo – e pela primeira vez iria juntar esta cadeira “light” à minha asa. Já tinha feito travessias em autonomia a caminhar, de bicicleta e até de kayak, mas colocar tudo em modo vôo era outro patamar.

Havia bons ciclos, por isso a opção foi descolar invertido. O speedbag bastante leve ficou para trás . Tive que colocar lá os pés com a ajuda das mãos, enquanto passava por cima de cabos de teleférico e contornava o monte para me virar para N. Todos os outros parapentistas viraram a E, para brincarem na montanha a S da aterragem, e eu fui tresmalhado, seguindo o meu caminho para W. Procurei onde subir junto a uma parede que já tinha levado com algum sol, mas era tudo aos soluços e os apagões não me permitiram subir até à nuvem, que estava abaixo dos cumes – ou provavelmente a falta de destreza não mo permitiu. Ao chegar à parede N, vi que o vale já se encontrava varrido. Sem conseguir subir, queria agora tentar aterrar nas clareiras o mais próximo possível do teleférico para ainda aproveitar o bonito dia e tentar, quem sabe, descolar do Zugspitz, mas o vento forte obrigou-me a procurar um lugar mais afastado sem os rotores provocados pelas grandes árvores. Comprei bilhete só de subida. Se não conseguisse descolar, desceria depois para o lado Austríaco. À chegada ao topo mal apreciei a paisagem. A procura de um “T0” para esticar o trapo e descolar, sobrepôs-se a tudo. O vento estava fraco. Vi escarpas para o lado do vale e várias descolagens, mas para dentro do maciço, para o glaciar. Por fim, entre umas antenas e o edifício do teleférico Austríaco, encontro o “T0” que procurava. À saída, teria cabos de teleférico do lado direito e penhasco do lado esquerdo. A asa ficaria meia na neve e meia no cascalho, a intensidade do vento era boa o suficiente para me pôr no ar nos dois passos que tinha para descolar, mas o vento estava lateral.

O vento fica com ciclos de frente e tenho 40min para o último teleférico. Enquanto tento decidir, as nuvens chegam e decidem, por mim, o dilema. Este foi um momento em que senti falta de um(a) parceiro(a), daqueles em que eu digo “mata” e ele(a) “esfola”. Era sítio para descolar!! Fiquei um pouco triste com o dia que tinha acabado por perder! Tive a sensação de que o vale para onde iria agora, virado a W, estaria a funcionar muito bem. Estava a pagar pela falta de confiança de quem ainda só tinha esticado o trapo umas 5 vezes este ano, mas também consciente de que a viagem ainda agora tinha começado e que todas as decisões teriam de ser tomadas com base na segurança. Dormi no Parque de Campismo Dr. Lauth.

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Dia 4

O dia reservava-me vento forte, sol, e nuvens daquelas que gostamos num dia de vôo. Percorri 8,9km com um desnível positivo de 1065m, até Grubighutte, e na hora de maior calor encontrava-me na subida, mas na frescura dos bosques. Já depois de Wolfratshauser Hutte, conheço um indivíduo que esteve na organização do X-Alps, no turnpoint de Lermoos. Informo-o das minhas intenções, mas que hoje já só irei apreciar a paisagem lá em cima, pois o vento já está forte demais. Diz ele:”Ah! O Maurer descolou com uma intensidade de vento igual, na descolagem N/NW, fez aquela ladeira, subiu lá ao fundo e foi por aí fora.” E eu a pensar para os meus botões:”Olha-m’este!! A falar de uma águia a uma galinha depenada!!”

Ao final da tarde fiz umas caminhadas de reconhecimento à crista, para ver onde poderia descolar no dia seguinte. O problema da falta de aterragens era o mesmo do 1º vôo. Uma área extensa de vegetação e a primeira vila ficava fora do contacto visual, “ao virar da esquina” de uma montanha. Através do Google Maps, vi que havia um campo junto ao rio. A ideia era descolar cedo e aterrar quanto antes, pois pelas previsões seria dia de vento NW forte novamente e trovoada à tarde, seguido de dois dias de chuva.

Dia 5

A noite foi calma, mas logo pela manhãzinha o vento instalou-se acompanhado de rajadas bastante fortes. Nem queria acreditar que teria de descer tudo aquilo a pé, pois já não tinha comida para mais dois dias. Durante o pequeno-almoço, e enquanto desmonto o acampamento, o vento dá sinais de tréguas e a esperança volta a instalar-se. Subo mais um pouco, ainda sem saber se conseguirei descolar, mas no cume não há vento. Enquanto me equipo há ciclos bastante espaçados e fracos, mas bons o suficiente para inflar invertido. Mas, já quando estou para descolar, vem a primeira brisa de costas. Apresso-me a virar para alpino e descolo, antes que morra na praia.

Começo logo a subir. Fico todo contente pois nunca acreditei que àquela hora já se subisse. Sou logo tentado pela possibilidade do vento não ser assim tão forte, e em sendo, então mais depressa ainda me poder fazer chegar à encosta do lado de lá do vale – depois seria só fazer o dinâmico dessa encosta, e o vale aberto estaria logo ali para então aterrar em segurança. Mas lá me consegui manter focado e não sair da margem de segurança que tinha estabelecido para esta viagem. Depois caminhei 20Km, sempre a descer. Foi um dia bastante quente, atenuado com um banho no lago Sameranger See, pela frescura das árvores e depois pelas nuvens que cobriram os céus. Ao final do dia veio a chuva, e montei tenda num bosque, em Tarrenz.

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Dia 6

Acordei com a chuva, mas o Sol que veio a seguir rapidamente secou a tenda. Foi o dia todo nesta alternância. Algum frio quando vinha a chuva, e muito calor quando vinha o Sol. A ideia era subir até à zona do final do teleférico de Imst, e descolar de lá no dia seguinte. A comida não era muita, mas não me preocupei porque iria descolar no dia seguinte… ou não! Tinha 10km e 1132m de desnível positivo pela frente. Paro em Latschenhutte para uma merecida cerveja e entretanto o Sol é substituído por uma copiosa chuvada. Os donos do café amavelmente oferecem-me boleia para baixo mas “eu vou para cima”. Com um tempo daqueles, “desejam-me sorte”, mas também me oferecem o jardim para eu montar a tenda se mudar de ideias e resolver ficar. Fico, pois claro! A chuva não dá tréguas e a temperatura cai a pique, mas bem pior é o cheiro emanado pelas minhas roupas e pelo meu corpo. Um banho no bebedouro, e lavagem da roupa foi o que se seguiu.

Dia 7

Ou as previsões saíram completamente ao lado ou o cansaço já nem me permite ver a meteo em condições: chuva, céu completamente coberto e lá em baixo no vale também algumas nuvens. Um dia assim só serve para esvaziar a despensa, que já não está cheia! Nas novas previsões, amanhã é que é.. ou não!

Hoje o café não abre e eu aproveito e fico novamente no jardim.

Dia 8

Acordo com nevoeiro cerrado. Subo até à zona do teleférico e vou aguardando. Ligeiras abertas mostram que o Sol está forte, para lá das nuvens. Forte q.b. para me secar a roupa ainda húmida, nestas pequenas abertas.

Lá em baixo no vale está sol, é o que me dizem as pessoas que vão subindo no teleférico. Poderia tentar fazer uma marreca, apesar de sotaventado e com alguma intensidade, mas dias bons são hoje e amanhã. Se vou hoje para baixo, amanhã nunca estarei a tempo numa qualquer descolagem, e depois volta a chuva para mais dois dias.

Finalmente destapa, à hora que o Sol também já está do lado de lá da montanha, e com isto, o sotavento outrora inofensivo torna-se violento a descer a montanha. Estou desmotivado. A meteo dá para amanhã previsões muito parecidas com as de hoje, com possível aumento de tecto. E já vou com 8 dias de viagem, em que não voei praticamente nada e as previsões para os próximos dias são mais do mesmo: chuva e vento forte. Mais para Sul melhora ligeiramente. Na despensa, há uma refeição quente e um cappuccino. A ideia para amanhã será marrecar o mais próximo possível a Landeck, comer e abastecer a despensa -e, se possível, apanhar um teleférico em Zams para Venet e voltar a fazer uma marreca.

Dia 9

NEVOEIRO!!! Car%&/%$!!!!

Para pequeno-almoço, apenas há… o Cappuccino! Subo mais um bocado e preparo-me para a descolagem, ainda envolto em nevoeiro. Hoje tenho de ir para baixo e caminhar para Sul. Já estou a meio dos meus dias e parece que ainda não saí do início da travessia. Finalmente destapa e fico com um “chapéu” de nuvens mesmo por cima da cabeça. Já devo conseguir ficar bem perto de Landeck, penso eu! Estou tão desmotivado e sem esperança de fazer um bom vôo que me preparo apenas para uma marreca. Vou sem balaclava, sem gola, e com as calças cardadas mais finas. Quem de nós, aéreos, ainda não cometeu esta asneira? Resultado: andei dois dias com os maxilares a doer – mas muitos mais com aquele sorriso estúpido de orelha a orelha!! Mais 30min e descolo para a minha “marreca”, já as nuvens estão uns 200m acima da minha cabeça. Vou directo às montanhas e encosto-me. Quero aproveitar todos os pequenos bafos para chegar o mais próximo possível a Landeck. Está a funcionar bem, e apenas com oitos subo o suficiente para ficar todo eufórico com a paisagem que tenho ao meu redor. Ainda há pouco via não mais de 100m com o nevoeiro, e agora, com nem 5min de vôo, tenho ao meu redor um infindável mar de montanhas sarapintadas de branco, vales verdinhos e cúmulos por todo o lado. Contorno a montanha e fico virado para SW. Perco-me naquela imensidão e beleza!

Subir foi de qualquer maneira. Pontapé daqui, pontapé dacolá, mas mal enrolava. Era só preocupar-me em manter a asa por cima da cabeça e… contemplar! Estava tão incrédulo com tudo aquilo que estava a viver, que disse para mim mesmo, que não interessava o rumo que estava a tomar. Interessava viver o momento intensamente e depois…, nem que tivesse de caminhar tudo novamente para trás.

Apercebo-me que já não tenho camisa no manobrador esquerdo, mas duas nuvens seguidas permitem-me continuar alto sem enrolar, como que a dizer que não é por um manobrador descamisado que vou abortar o vôo. Entretanto, o vale começa a chegar ao fim e lá me decido a seguir a minha trajectória para Sul. Atravesso o vale em direcção ao Sol e com o vento de costas. Já relativamente baixo, encosto-me à montanha abaixo do glaciar e percorro-o até ao topo – e novamente uma paisagem de cortar a respiração. Atravesso novo vale, mas a meio noto algo de diferente: mais turbulência. Já na outra encosta, encontro tudo mais desorganizado até que encontro uma boa térmica a empurrar-me contra a parede. As condições mudaram e eu mudo também o chip.

A partir deste momento, fico em modo aterragem, e com as condições que se puseram não tenho dúvidas quando vejo o vale largo do Lago di Rèsia. A alternativa seria ir pelo vale Scuol, mas agora estava escolhido o restante itinerário. Ainda tentei apanhar a parede de Piz Mundin, Muttler e Piz Tschutta, mas o vento já não me deixou ir brincar para aquelas paredes. Aterragem sem sobressaltos mas na vertical, e agora sim, podia saborear o vôo. O vôo que já tinha valido por toda a viagem, que já se tinha sobreposto a todos os dissabores e desmotivações, e já tinha justificado todo o quilómetro de asa às costas.

Apesar do calor cá em baixo, o corpo ainda demora a refazer-se do frio passado. Agora sim! Depois de abastecer a despensa, posso tomar o pequeno-almoço, nas bordas do Lago di Rèsia. Até ao camping Thoni ainda tenho 9km de caminhada.

As previsões a mostrarem ser o único dia voável até 2a feira. Próximo do local onde aterrei as previsões também não eram nada animadoras.

DCIM\100MEDIA

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Dia 10

O dia de hoje e os dois próximos não estão com boas previsões para voar, portanto resta-me caminhar. Escolho o Piz Umbrail como próximo ponto de descolagem. Através do Google Earth não consigo ter a certeza que se consiga descolar de lá, mas acredito que se arranje lá um cantito. Separam-me 37km e 2052m de desnível positivo. Faço 19km até um parque de merendas, às portas da Suíça, e monto acampamento.

Dia 11

Caminho 15km, para ficar num sítio daqueles! Lago di Rims.

Dia 12

Acordo com os cumes a dizerem-me que nevou ligeiramente lá para cima. Ao entrar na Suíça fiquei sem internet (plafond esfumou-se em 2min), mas a última vez que tinha visto previsões, estas diziam-me que amanhã teria nova oportunidade para um voaço. Ao final da tarde umas abertas e aproveito para fazer um reconhecimento à subida que vou fazer no dia seguinte.

Dia 13

Acordo às 6h mas volto a adormecer e só volto a acordar 1h depois. A tenda e o protector da mochila estão gelados.Começo a ficar ansioso. Já começam a aparecer os primeiros cúmulos e ainda tenho 3,4km e 589m de desnível para vencer. Vou tomando o pequeno-almoço ao mesmo tempo que vou virando a tenda, assim que os primeiros raios de Sol começam a atingi-la e a vão secando. Parece que nenhuma subida me cansou tanto como esta, mas também em nenhuma delas estava a subir em contra-relógio, com o pensamento que poderia chegar lá em cima já demasiado tarde. Ao chegar ao cume, cruzo-me com vários BTTistas que vão agora descer a montanha. Do lado Sul era impossível descolar. Só escarpas. Mas do lado N uma boa rampa nevada esperava por mim.

Uma muito leve brisa na cara e começo a correr. Num instante já estou de caras com o maciço de Ortler, Zebrù e companhia. Sobe-se facilmente, e a zona do lago onde acampei estes últimos dois dias, já está bem lá em baixo. Volto a ser premiado com um mar de montanhas a 360º. Glaciares, ora à esquerda ora à direita, lagos, barragens… Mal acredito que estou a viver momentos destes novamente, mas desta vez, sem frio. Nestes dias de espera junto ao lago, andava a pensar que com boas condições e com um pouco de sorte, poderia chegar a Lecco num só vôo. Tinha as faces das montanhas todas viradas para o Sol, à medida que o dia ia avançando. Mas no dia de hoje tinha vento de frente, que comecei a sentir bastante cedo, e quando bateu forte, já nem deu para chegar à crista que estava à minha frente para tentar aterrar num sítio mais cimeiro.

Tinha voltado a estar literalmente nas nuvens, a sobrevoar paisagens magníficas, neste cenário ímpar. Já estava em modo nostálgico enquanto dobrava a asa, pois sabia que só tinha mais um dia aproveitável de vôo daqui a dois dias, e com vento forte de frente novamente. Caminhei 3,7km (e mais uns trocos, pois andei às voltas por causa de caminhos cortados por derrocadas de árvores) num desnível positivo de 526m, e fiquei no quintal de uma casa.

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Dia 14

Acordo com chuva, como as previsões prometiam. Ao final da manhã pára e vem o Sol. Começo a desmontar o material quando me apercebo que tenho tudo molhado na mochila. A cadeira vai para o Sol e a asa fica a secar à sombra de uma árvore. Por fim, começo a caminhada e volto a andar às voltas, com bastantes árvores tombadas pelos caminhos a obrigarem-me a procurar alternativas. Acabo de montar tenda, ligeiramente abaixo do teleférico, e vem o dilúvio. Fico com vistas para o vale de Sondrio.

Dia 15 (16.7.2019)

Faço a minha última subida nas calmas. As nuvens ainda estão ao nível de onde dormi e demoram a subir, e acima dos cumes já se deslocam de N com alguma intensidade. Não estou com muitas expectativas e rapidamente confirmo que o vôo vai ser curto. Tectos baixos e um andamento bastante lento por causa do vento de frente. Depois de passar o 2º vale, o vento aumenta ainda mais e este aumento é sempre acompanhado de muita turbulência – que desta vez me provocou um assimétrico bem jeitoso.

Estava a levar cacete q.b. e mesmo assim não subia, e o vento de frente pouco terreno me deixava ganhar. Decidi então fazer o planeio final e dar por terminada a minha travessia. Depois… foi caminhar até ao primeiro tasco e comemorar. Comemorar ter vencido os meus medos, e comemorar estes maravilhosos vôos que os Alpes me proporcionaram. Sigo de comboio para Colico.

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Percorri 4 países, onde caminhei, segundo o MAPS.ME, mais de 118km com um desnível positivo acumulado de mais de 7.000m, a carregar mais de 1/3 do meu peso, e voei 170km.

De tudo o que fiz e das decisões que tomei nesta viagem, não me arrependo de nada – e o arrependimento de não ter feito esta viagem há mais tempo já não faz parte desta viagem. Houve decisões que certamente seriam diferentes caso tivesse mais experiência e mais horas de vôo, mas fiz a omelete com os ovos que tinha. Concretizei um sonho muito graças a todos vocês, pilotos e instrutores, que me foram enriquecendo com as vossas partilhas e conhecimento. Por tudo isso, um muito obrigado a todos!

QUE TODAS AS DESCULPAS QUE ARRANJAMOS PARA NÃO REALIZAR OS NOSSOS SONHOS, NUNCA SEJAM SUPERIORES À VONTADE DE OS VIVER!

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Apps usadas: Goole Maps / Maps.me / Paraglidable / Morecast / Meteoblue / Windy

Sites usados: SpotAir / Winds.mobi

Material usado: Asa / Cadeira light / Paraquedas de emergência / Capacete/ Cockpit / Flymaster Live SD / Mochila / Bússola / Óculos / Luvas / Action camera + suporte p/ capacete + bateria extra + carregador / Balaclava / Chapéu / Gola / Bastões de caminhada / Camelbak / Tenda / Colchonete insuflável / Frontal / Toalha pequena / Saco-cama / Mochila pequena / Protector impermeável de mochila / Pastilhas para água / Lençol de sobrevivência / Botas / Calças.calções / Leggings cardadas finas / Leggings cardadas grossas / T-shirt algodão / T-shirt poliester / Sweet 1ª camada / Sweet cardada / Forro polar / Casaco PrimaLoft / Casaco Impermeável / Luvas de forro polar / Luvas finas / 2 pares de boxers / 2 pares de meias / Botija de gás / Fogão / Isqueiro / Tacho + copo + garfo + faca + colher / Sacos zip / Fita adesiva / 2 cabos usb + adaptador / MP3 / Telemóvel / Powerbank 30.000mAh / Protector solar / Ligadura elástica / Corta unhas / Escova e pasta dos dentes / Sabonete/ Papel higiénico / Bolsa porta documentos / Remendos e fios para asa (e para estendal).


O Clube de Voo Livre Vertical agradece ao Celso por partilhar a sua aventura connosco e permitir a reprodução desde artigo neste site. O artigo original está aqui:
https://celsohugoduarte.wordpress.com/2019/11/17/travessia-dos-alpes/

Um comentário em “Travessia dos Alpes (por Celso Duarte)”

  1. Ler este relato, acompanhado com estas fotos e vídeos, faz-me sentir que lá estou.
    Por isso acabo cansado só de pensar em andar 118km, mas deslumbrado pelas imagens, os voos, a aventura!
    Obrigado Celso!

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